terça-feira, 14 de julho de 2015

Os porquês de um menino miserável




Certa vez um menino triste andava pelas ruas olhando as demais crianças brincarem com pipas, carrinhos e comendo muitos doces, pipocas e pirulitos. Com uma tristeza inconsolável e com os olhos lacrimejando por não entender o que com ele se passava, o menino tinha na vida apenas um par de tênis esfarrapado, camisa rasgada e calças manchadas. Seu lar era a rua. Os cabelos com aparência grotesca revelavam não a falta de higiene, mas sim, a falta de um local para que uma água cristalina pudesse se banhar.
         Não só o chuveiro lhe faltava, mas também a cama e a cozinha, enfim, um lar, onde pudesse apenas sentir o amor nas palavras de bom dia do pai e o carinho da mãe lhe preparando o café.
Assim, o menino ficou horas a admirar aquelas crianças e, mesmo jovem e imaturo tinha ideias na consciência que por oras lhe pareciam adultas e inexplicáveis. Por que comigo meu Deus? Por que elas podem ter um lar e eu não? Por que tenho que viver contentado com roupas maltrapilhas e sonhos impossíveis?
Até que um dia, a fome foi maior que a necessidade de existência e a morte lhe veio da forma mais primária, o menino morreu de fome e junto, morreram seus sonhos também.
Ao chegar no céu mal acreditou na recepção que teve: anjos tocavam uma música tão agradável como nunca tivera ouvido antes. O cheiro no ar era quase embriagante, pareciam rosas coloridas que riam perfume. Guloseimas e doces confeitados postos em uma mesa, dando-lhe a primeira ideia de pega-los e se alimentar.
Ainda surpreso com tudo aquilo que via e sem entender quase nada, sentou-se num canto e como se fosse por uma televisão viu novamente aquelas crianças com suas pipas e guloseimas, vivendo a vida que outrora ele desejou ter. Pareceu um filme, elas cresceram e não demorou muito, aquelas cenas confessavam os problemas que passaram a ter. Muitos tornaram-se adultos mesquinhos e desonestos. 
Seguindo confuso, um lindo anjo se aproximou e estendeu-lhe as mãos:
- "Venha comigo, disse, com palavras recheadas de ternura que passaram muita confiança ao menino".
Chegando a um lugar ainda mais lindo, o anjo disse-lhe:
- "Vá agora menino, pergunte por que com você? É a sua oportunidade". 
Então o menino enxergou algo que seus olhos nunca tivera visto, um ser enorme, que irradiava luz e amor, e logo fez a pergunta.
A resposta não demorou, então aquela criatura disse: 
- "Não importa a classe, o gênero, a forma ou a espécie da criatura, Deus criou o amor para todos, sendo os dóceis ou ferozes e ele sempre vai existir na tua vida. Se parecer-lhe dor, é porque será maior ainda do que aquele que lhe parece mel. Muitos rios parecem turvos, mas são tranquilos para o banhar, enquanto outros límpidos apenas são chamados a uma imensa correnteza mortal. O amor é o brilho da vida, está não nas coisas que encontramos ao nosso lado, ou ao redor, e sim dentro de nós. Amamos outra pessoa quando ela nos faz capaz de enxergar esse sentimento dentro do coração. Não te perguntes porquê não és amado, és sim, ao menos por uma pessoa neste mundo, a mais importante e especial: Deus. Quanto ao amor, não queiras encontrá-lo no afago de outrem se não és capaz de vê-lo nos teus próprios olhos. Estás neste mundo de provas e expiações para se tornar digno do amor e, se já consegues sentir no teu peito, um sentimento inexplicável, tenhas a certeza, Deus existe e está expresso na tua capacidade de desejar um bem infinito a quem adoras. 
Não pense que paixões te preenchem, elas são bálsamos para o corpo e não para a alma. Saberás a diferença enquanto estiveres ao lado de alguém sem vontade unicamente carnal. O amor é único, amas teus pais, amigos e a criatura que te acompanha da mesma maneira e intensidade, sem exageros ou fanatismos", concluiu. 
       Inebriado com as palavras do ser, o menino transformou-se num homem, que pode entender a essência e razão daquelas palavras, vendo que na vida anterior, tinha sido um senhor feudal muito temido que abusava de crianças com menos de 15 anos, colocando-as em sacrifícios de trabalhos e sexuais. Nesta vida, ele não passou da fase de criança e teve que estar sem amor para valorizá-lo nas que seguirão. A justiça divina é feita da consciência de cada um de nós, que com nossas ações causam reações que são transcendentais a uma única existência. Parece lógico, comum na visão espírita essas observações, mas na mente de muitos humanos é uma inverdade. O tempo, e infelizmente a morte, mostrará a função do Consolador Prometido.
         Mas nós não temos a oportunidade do menino em estar encarnado ou desencarnado e logo saber a razão de todas as coisas. A alma não é racional e não tem explicações e, da mesma maneira são os sentimentos.

Se são plantados em teu jardim, cultive-os, nada é por acaso e desta feita, não será também. Cada existência é única e as demais não podem ter reflexos senão positivos. Não viva os temores do passado, desprenda-se dos medos e mostre a si mesmo que és capaz de libertar o espírito dos rancores. Ame, só assim encontrará a paz, mas lembre-se, o amor é como o sol, precisa de frestas arejadas para iluminar com seus brilhantes raios os corações carentes. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário