segunda-feira, 20 de julho de 2015

É possível viver sem amigos?


       Quando pesquisamos na internet frases sobre amizade encontramos uma dessas lindas como a da imagem onde vemos um cão e um gato abraçados. A frase é do filósofo Aristóteles, um ícone da filosofia antiga, estudado por muitos, desconhecidos por outros tantos. O fato é, que a amizade não é um sentimento moderno e sim, tem raízes tão profundas como a própria história do ser humano. Por isso hoje, 20 de julho, Dia do Amigo, resolvi adaptar e compartilhar este texto que escrevi ainda ano passado em uma disciplina da Faculdade de Filosofia. Convido agora que percebam a fascinante visão aristotélica sobre a amizade.

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         Em uma das principais obras de Aristóteles a Ética a Nicômaco conseguimos perceber o entendimento do filósofo sobre a amizade, philia em Grego. Aristóteles fala muito sobre a felicidade (eudaimonia) como finalidade (telos) da nossa existência, do nosso viver. Neste sentido, descarta os bens exteriores (fama, riqueza, nobreza). Percebemos que a felicidade é então uma atividade, uma atividade que não temos a posse desde o princípio da vida, mas que vamos executando, muito através dos hábitos e da virtude, do juízo da prudência e essencialmente, pela conquista dos bens instrumentais, que são os bens do corpo e os bens exteriores.
          Aristóteles afirma que a eudaimonia se consolida na cidade (polis), no convívio em comunidade e nunca isoladamente. O que quer dizer, que sozinhos jamais seremos felizes. Porém, este convívio em sociedade precisa ser aprazível, espaço no qual é possível exercer a atividade do bem, portanto, como exercê-la sem as pessoas? Então, são justamente essas pessoas que nos proporcionam, além das práticas virtuosas, a análise das ações. Torna-se mais fácil perceber no outro, acertos e falhas do que em si. Nos casos mais satisfatórios, o outro adquire uma característica de espelho que sugere nossas próprias mudanças e progresso intelectual e moral. Entretanto, o filósofo estagirita (da cidade de Estagira) destaca que essas possibilidades de fazer o bem ou de compartilhar virtudes, limitam-se ou até mesmo impossibilita-se, quando esse outro é algum desafeto.
Por mais que insista na importância do respeito aos familiares, aos mais velhos e aos mais sábios, Aristóteles compreende a limitação humana no tangente à aceitação dos erros dos outros, da compreensão e do próprio amor ao próximo. Por isso mesmo, é que considera condição essencial para a felicidade a de ter amigos.
Mas a amizade na visão aristotélica não tem as implicações vulgares como na contemporaneidade. É um sentimento muito mais afetuoso do que como o compreendemos. Um sentimento que relaciona as pessoas não só por respeito ou afinidade, mas essencialmente, por cumplicidade de pensamentos, baseado na virtude e num bem-querer recíproco, tão quanto maternal, onde a felicidade do outro se torna desejável na mesma intensidade que para si próprio.
Neste contexto, Aristóteles aponta ainda os diferentes estágios intelectuais como impeditivos para amizade. Pois considera o conflito de opiniões um espaço de discórdia e não de amor. Os amigos são necessários na prosperidade e na adversidade, pois auxiliarão na trajetória, eximindo-se assim de uma vida solitária e dura. O amigo torna-se tão referencial considerando-se como o outro “eu” do sujeito. O maior número de amizades então é muito bem-vindo e contribuirá ainda mais para o desenvolvimento e habitualidade das virtudes.
         Com efeito, podemos perceber que é da própria natureza do homem essa atividade política, sendo a philia a execução mais sublime dessa atividade, pois possibilita uma interação e troca, uma vida em comunidade onde é o único lugar possível de encontrar a eudaimonia.


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