terça-feira, 28 de julho de 2015

Sobre “fazer alguma coisa” em vez de criticar



            Ouvimos em diversas ocasiões ao realizarmos alguma crítica em uma conversa ou em uma rede social, a resposta de que deveríamos fazer alguma coisa em vez de criticarmos. Quem assim o diz, na verdade quer dizer que devemos levantar da cadeira e ir a luta em vez de escrevermos, falarmos ou postarmos algum comentário sobre o que vem nos incomodando nos mais variados contextos da sociedade. Ao analisarmos logicamente este enunciado, podemos observar a invalidade desse argumento e a fragilidade das premissas. Em primeiro lugar é um afronto à liberdade de expressão, pois ao menos de forma legitimada, temos em nosso país a democracia que nos permite – dentro dos limites do respeito e do bom senso – falarmos e escrevermos o que quisermos. Em segundo, o que é fazer alguma coisa? É pegar uma bandeira e ir às ruas? É vestir uma camiseta? É protestar contra o problema da água no mundo ficando com sede ou fazer justiça com as próprias mãos como temos assistindo? Enfim, essa afirmativa é uma aberração à intelectualidade e um argumento frágil, dito por quem desconhece o poder da palavra e a força das ideias. Esse pensamento é resultado da nossa sociedade mecanicista, operacionista e instrumentalista, onde o fazer torna-se mais importante que tudo, onde o ter é mais importante que o ser, resultado de uma funcionalidade capitalista que desconhece os aspectos intelectuais mais relevantes do ser humano que é a expressão, a comunicação e a filosofia, vetores das verdadeiras e mais consistentes transformações.
           Se perguntarmos sobre a gênese de toda a história e humanidade, cada qual tenderá a fazer uma apologia a sua área de formação: O professor dirá que é a educação; o engenheiro dirá que são as invenções; o advogado dirá que são as leis e a justiça e assim por diante. Mas agora peço que antes de continuar a ler este texto, faça sua própria defesa do que é mais importante que tudo isso, deixando de lado, no entanto, a transcendência religiosa, ou seja, não falaremos de Deus nesta questão ou que Ele é o mais importante de tudo.
            Tudo o que acontece no mundo tem uma só fonte una e inquestionável: a ideia. A ideia como resultado do pensamento, encontra-se no cerne de toda atividade humana. Tudo, absolutamente tudo, o que se materializa no mundo nasce no pensamento de alguém. Portanto, se relegarmos a importância e influência das ideais e das palavras, incorremos em uma ignorância tamanha que jamais nos levará ao esclarecimento. As ideais movem o mundo desde os mais remotos tempos. Toda revolução começa no campo das ideias e das teorias. Independentemente da fonte e origem que nossas crenças atribuem a ela (a ideia), é ela, que antecede a qualquer bem, ato, invenção, criação ou transformação no campo material e intelectual.
         Se conhecermos mesmo que de forma elementar a história da humanidade, perceberemos a influência das ideias nas mais variadas guerras e revoluções. É claro que essa influência muitas vezes é negativa, mal colocada e também mal interpretada. A influência das ideias religiosas e filosóficas são refletidas até a contemporaneidade o que parece paradoxal frente a nossa sociedade mecanicista. Mas, mesmo o ato mecânico, precede de uma ideia que o formatou.
           A comunicação é fonte essencial da perpetuação das ideias. A imprensa eterniza o pensamento. Tudo que é escrito influencia de alguma forma, no entanto o que é apenas pensado e não compartilhado é como uma luz com potencial que não se acende. Jornalistas e filósofos no decorrer da história, iniciaram importantes e decisivos eventos. Na modernidade, por exemplo, inspiraram movimentos como o Iluminismo, Renascentismo e Revolução Industrial, entre outros tantos eventos consideráveis na linha do tempo do mundo em que vivemos. No entanto, poucos ou nenhum deles empunhou bandeira, cartaz e foi às ruas, porém, na força de suas palavras, motivaram quem o fizesse. Quem escreve faz alguma coisa sim e contestar esse argumento é desconhecer a história e a forma pela qual o próprio mundo se desenhou.
         Pragmatismo é sim fundamental. Em nenhum momento aqui digo que não se faz necessário engajarmo-nos em movimentos e causas sociais, entretanto, penso que cada um doa o que lhe de melhor possui. Se é a força do grito nas ruas, o mãos a obra ou as palavras silenciosas de um texto, tanto faz, o importante é contribuir e se contribui muito sentado em uma cadeira desde quando do outro lado tinha o papiro, a máquina de escrever ou agora o computador. Quem escreve influência de maneira imensa uma série de acontecimentos, por isso a palavra torna-se uma arma que infelizmente às vezes é mal usada e letal. Expressar-se, no entanto, não nós dá o direito de ofender, blasfemar ou caluniar quem quer que seja. Porém, observar de forma sociopolítica um acontecimento é um direito de qualquer cidadão pode exercer com respeito e que qualquer pessoa a qual se refira, pois todos nós estamos sujeitos à críticas no que fazemos e se levarmos para o lado pessoal incorreremos em uma ilusão ao pensamos que poderemos agradar a todos. Isto é impossível e todos somos sujeitos a erros e observações a respeito do nosso trabalho e conduto. Ressalvo no entanto, que características físicas e pessoais, ou seja, aquilo que independe da nossa escolha, se for alvo de críticas proveem de pessoas na qual devemos apenas ter pena por tamanha ignorância e falta de esclarecimento.
            Ouvi de um amigo idoso um dia, que sentado e dependendo de muletas, era capaz de derrubar muitos que são capazes de correr como perdizes, apenas abrindo a boca. A palavra eleva ou rebaixa uma personalidade, um evento ou qualquer outro setor da sociedade. Se formos analisar, quando votamos em alguém nas urnas, estamos acreditando que essas sejam as pessoas que vão fazer alguma coisa para mudar alguma coisa.
           Apesar das críticas infundadas e muitas vezes vazias que são destinadas à mídia e aos jornalistas, a evidência é indiscutível: é através da mídia e muitas vezes da investigação de veículos de comunicação que são desvelados escândalos diversos, invenções valiosas e informações importantes. A comunicação social presta um serviço indispensável a sociedade e nem por isso, os jornalistas vão às ruas fazer passeata, carreata ou manifestos. Nos limites das paredes das redações pelo mundo afora, sentados em suas cadeiras, jornalistas, articulistas ou demais pessoas que escreve em conhecem o poder das palavras que digitam e as repercussões que podem causar são capazes de denunciar e desposar governos, máfias e ceitas.
             Assim como é inadmissível o desrespeito à comunicação é quanto aos filósofos. Como em todas as profissões certamente há os maus profissionais, mas aqui nos deteremos ao que se pensa ser o ideal do ofício. Ouvi recentemente um comentário de alguém afirmando que a filosofia se prestava a satisfazer egos e era indispensável. Uma outra ignorância de quem desconhece que tudo começa no campo das ideias. Os filósofos portanto, são justamente os que trabalham nesse embrião de tudo que a de vir no mundo: as ideias e os pensamentos. A filosofia é fundamental e está em todos os períodos históricos da humanidade e em todos os seres humanos. Mesmo sem nos darmos contas, estamos abordando questões filosóficas quando estamos diante de dilemas morais, questionando-nos sobre escolhas, arbítrio, felicidade, origem da vida e nosso papel no mundo. Academicamente portanto, assim como na comunicação, a filosofia analisa e problematiza tudo que há, com respaldo de ícones que citamos até mesmo sem saber direito quem são, tais como Sócrates e Platão. “Só sei que nada sei”, a frase que Sócrates encontrou no templo de Delfos, encerra a maioria das questões onde os porquês parecem infinitos.
           Mas voltando ao “fazer alguma coisa”, pergunto o que move as pessoas que na prática fazem? O que move os protestos, manifestos, ações sociais de caridade, solidariedade ou motivação?
          É lógico que tudo começou no campo das ideias! No pensamento dos envolvidos, a partir de alguma influência. Mas de onde vem essa motivação? Esse pensamento? De alguma leitura de um texto escrito por filósofo, sociólogo, jornalista, psicólogo ou qualquer cidadão comum com habilidade de externar em palavras as suas ideais. Na verdade, um único texto, livro, reportagem ou obra de qualquer espécie de um único autor, pode mover uma nação inteira. Então eu pergunto, isso não é fazer sua parte, não é “ir a luta”?



segunda-feira, 20 de julho de 2015

É possível viver sem amigos?


       Quando pesquisamos na internet frases sobre amizade encontramos uma dessas lindas como a da imagem onde vemos um cão e um gato abraçados. A frase é do filósofo Aristóteles, um ícone da filosofia antiga, estudado por muitos, desconhecidos por outros tantos. O fato é, que a amizade não é um sentimento moderno e sim, tem raízes tão profundas como a própria história do ser humano. Por isso hoje, 20 de julho, Dia do Amigo, resolvi adaptar e compartilhar este texto que escrevi ainda ano passado em uma disciplina da Faculdade de Filosofia. Convido agora que percebam a fascinante visão aristotélica sobre a amizade.

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         Em uma das principais obras de Aristóteles a Ética a Nicômaco conseguimos perceber o entendimento do filósofo sobre a amizade, philia em Grego. Aristóteles fala muito sobre a felicidade (eudaimonia) como finalidade (telos) da nossa existência, do nosso viver. Neste sentido, descarta os bens exteriores (fama, riqueza, nobreza). Percebemos que a felicidade é então uma atividade, uma atividade que não temos a posse desde o princípio da vida, mas que vamos executando, muito através dos hábitos e da virtude, do juízo da prudência e essencialmente, pela conquista dos bens instrumentais, que são os bens do corpo e os bens exteriores.
          Aristóteles afirma que a eudaimonia se consolida na cidade (polis), no convívio em comunidade e nunca isoladamente. O que quer dizer, que sozinhos jamais seremos felizes. Porém, este convívio em sociedade precisa ser aprazível, espaço no qual é possível exercer a atividade do bem, portanto, como exercê-la sem as pessoas? Então, são justamente essas pessoas que nos proporcionam, além das práticas virtuosas, a análise das ações. Torna-se mais fácil perceber no outro, acertos e falhas do que em si. Nos casos mais satisfatórios, o outro adquire uma característica de espelho que sugere nossas próprias mudanças e progresso intelectual e moral. Entretanto, o filósofo estagirita (da cidade de Estagira) destaca que essas possibilidades de fazer o bem ou de compartilhar virtudes, limitam-se ou até mesmo impossibilita-se, quando esse outro é algum desafeto.
Por mais que insista na importância do respeito aos familiares, aos mais velhos e aos mais sábios, Aristóteles compreende a limitação humana no tangente à aceitação dos erros dos outros, da compreensão e do próprio amor ao próximo. Por isso mesmo, é que considera condição essencial para a felicidade a de ter amigos.
Mas a amizade na visão aristotélica não tem as implicações vulgares como na contemporaneidade. É um sentimento muito mais afetuoso do que como o compreendemos. Um sentimento que relaciona as pessoas não só por respeito ou afinidade, mas essencialmente, por cumplicidade de pensamentos, baseado na virtude e num bem-querer recíproco, tão quanto maternal, onde a felicidade do outro se torna desejável na mesma intensidade que para si próprio.
Neste contexto, Aristóteles aponta ainda os diferentes estágios intelectuais como impeditivos para amizade. Pois considera o conflito de opiniões um espaço de discórdia e não de amor. Os amigos são necessários na prosperidade e na adversidade, pois auxiliarão na trajetória, eximindo-se assim de uma vida solitária e dura. O amigo torna-se tão referencial considerando-se como o outro “eu” do sujeito. O maior número de amizades então é muito bem-vindo e contribuirá ainda mais para o desenvolvimento e habitualidade das virtudes.
         Com efeito, podemos perceber que é da própria natureza do homem essa atividade política, sendo a philia a execução mais sublime dessa atividade, pois possibilita uma interação e troca, uma vida em comunidade onde é o único lugar possível de encontrar a eudaimonia.


terça-feira, 14 de julho de 2015

Os porquês de um menino miserável




Certa vez um menino triste andava pelas ruas olhando as demais crianças brincarem com pipas, carrinhos e comendo muitos doces, pipocas e pirulitos. Com uma tristeza inconsolável e com os olhos lacrimejando por não entender o que com ele se passava, o menino tinha na vida apenas um par de tênis esfarrapado, camisa rasgada e calças manchadas. Seu lar era a rua. Os cabelos com aparência grotesca revelavam não a falta de higiene, mas sim, a falta de um local para que uma água cristalina pudesse se banhar.
         Não só o chuveiro lhe faltava, mas também a cama e a cozinha, enfim, um lar, onde pudesse apenas sentir o amor nas palavras de bom dia do pai e o carinho da mãe lhe preparando o café.
Assim, o menino ficou horas a admirar aquelas crianças e, mesmo jovem e imaturo tinha ideias na consciência que por oras lhe pareciam adultas e inexplicáveis. Por que comigo meu Deus? Por que elas podem ter um lar e eu não? Por que tenho que viver contentado com roupas maltrapilhas e sonhos impossíveis?
Até que um dia, a fome foi maior que a necessidade de existência e a morte lhe veio da forma mais primária, o menino morreu de fome e junto, morreram seus sonhos também.
Ao chegar no céu mal acreditou na recepção que teve: anjos tocavam uma música tão agradável como nunca tivera ouvido antes. O cheiro no ar era quase embriagante, pareciam rosas coloridas que riam perfume. Guloseimas e doces confeitados postos em uma mesa, dando-lhe a primeira ideia de pega-los e se alimentar.
Ainda surpreso com tudo aquilo que via e sem entender quase nada, sentou-se num canto e como se fosse por uma televisão viu novamente aquelas crianças com suas pipas e guloseimas, vivendo a vida que outrora ele desejou ter. Pareceu um filme, elas cresceram e não demorou muito, aquelas cenas confessavam os problemas que passaram a ter. Muitos tornaram-se adultos mesquinhos e desonestos. 
Seguindo confuso, um lindo anjo se aproximou e estendeu-lhe as mãos:
- "Venha comigo, disse, com palavras recheadas de ternura que passaram muita confiança ao menino".
Chegando a um lugar ainda mais lindo, o anjo disse-lhe:
- "Vá agora menino, pergunte por que com você? É a sua oportunidade". 
Então o menino enxergou algo que seus olhos nunca tivera visto, um ser enorme, que irradiava luz e amor, e logo fez a pergunta.
A resposta não demorou, então aquela criatura disse: 
- "Não importa a classe, o gênero, a forma ou a espécie da criatura, Deus criou o amor para todos, sendo os dóceis ou ferozes e ele sempre vai existir na tua vida. Se parecer-lhe dor, é porque será maior ainda do que aquele que lhe parece mel. Muitos rios parecem turvos, mas são tranquilos para o banhar, enquanto outros límpidos apenas são chamados a uma imensa correnteza mortal. O amor é o brilho da vida, está não nas coisas que encontramos ao nosso lado, ou ao redor, e sim dentro de nós. Amamos outra pessoa quando ela nos faz capaz de enxergar esse sentimento dentro do coração. Não te perguntes porquê não és amado, és sim, ao menos por uma pessoa neste mundo, a mais importante e especial: Deus. Quanto ao amor, não queiras encontrá-lo no afago de outrem se não és capaz de vê-lo nos teus próprios olhos. Estás neste mundo de provas e expiações para se tornar digno do amor e, se já consegues sentir no teu peito, um sentimento inexplicável, tenhas a certeza, Deus existe e está expresso na tua capacidade de desejar um bem infinito a quem adoras. 
Não pense que paixões te preenchem, elas são bálsamos para o corpo e não para a alma. Saberás a diferença enquanto estiveres ao lado de alguém sem vontade unicamente carnal. O amor é único, amas teus pais, amigos e a criatura que te acompanha da mesma maneira e intensidade, sem exageros ou fanatismos", concluiu. 
       Inebriado com as palavras do ser, o menino transformou-se num homem, que pode entender a essência e razão daquelas palavras, vendo que na vida anterior, tinha sido um senhor feudal muito temido que abusava de crianças com menos de 15 anos, colocando-as em sacrifícios de trabalhos e sexuais. Nesta vida, ele não passou da fase de criança e teve que estar sem amor para valorizá-lo nas que seguirão. A justiça divina é feita da consciência de cada um de nós, que com nossas ações causam reações que são transcendentais a uma única existência. Parece lógico, comum na visão espírita essas observações, mas na mente de muitos humanos é uma inverdade. O tempo, e infelizmente a morte, mostrará a função do Consolador Prometido.
         Mas nós não temos a oportunidade do menino em estar encarnado ou desencarnado e logo saber a razão de todas as coisas. A alma não é racional e não tem explicações e, da mesma maneira são os sentimentos.

Se são plantados em teu jardim, cultive-os, nada é por acaso e desta feita, não será também. Cada existência é única e as demais não podem ter reflexos senão positivos. Não viva os temores do passado, desprenda-se dos medos e mostre a si mesmo que és capaz de libertar o espírito dos rancores. Ame, só assim encontrará a paz, mas lembre-se, o amor é como o sol, precisa de frestas arejadas para iluminar com seus brilhantes raios os corações carentes. 

segunda-feira, 6 de julho de 2015

Memórias: Meu encontro com a filosofia

Este foi um texto de um trabalho da disciplina de Teoria e Prática Pedagógica, que resolvi compartilhar com quem curte filosofia!!!




            Meu encontro com a filosofia foi antes de tudo um encontro comigo mesma. Um encontro que possibilitou que as ideias, pensamentos e questões que vagavam pela minha mente, tomassem forma, alinhamento e sincronia, formando uma espécie de diagrama linear e organizado. Em outras palavras posso dizer que percebi que as minhas inquietações não eram tão particulares assim e nem tão eventuais. Minhas indagações já eram compartilhadas em outros tempos por outras pessoas que se tornaram então filósofos, assim como eu desejo me tornar, agora por metodologia acadêmica e não só por mero empirismo ou vontade de pensar por pensar, sem propósito ou finalidade.
        Sou uma pessoa naturalmente apaixonada pela sabedoria. Depois que conclui a graduação em Comunicação Social com Habilitação em Jornalismo, percebi que o ensino superior não é um ponto final do conhecimento. Sempre busquei me atualizar, pois penso que é inerente à prática profissional. Considerando a minha formação e responsabilidade enquanto profissional e cidadã, comecei a escrever um livro, o qual lancei no mês de junho sobre a história da minha cidade: Candiota. Esta oportunidade fez com que eu começasse a me apaixonar por história. Percebi que as pessoas que conhecem a história e como o mundo se desenhou, me exercem fascínio e admiração. Conclui então uma especialização através do Polo de Hulha Negra em 2012 e fiquei na espera de ser oferecido um curso de graduação. Então no primeiro semestre de 2014 foi oferecido o vestibular para Licenciatura em Filosofia. Na hora da publicação das inscrições para o vestibular nem pensei duas vezes, fui tomada pela excitação em voltar a estudar, e eis que era a filosofia, tendo ainda um atrativo essencial que era a instituição de ensino: a Universidade Federal de Pelotas (UFPel).
         Descobri na filosofia uma forma de melhor me relacionar comigo, saindo de uma solidão existencial para adentrar em um mundo de perguntas compartilhadas. Compreendi através dos mestres que mais importante do que saber responder é saber perguntar. Percebi, portanto, que as respostas que eu buscava são problemas filosóficos seculares, milenares e que perpassarão um tempo à frente ainda sem pontos finais. Identifiquei que na verdade tudo o que me indignou como jornalista, como ser humano, mulher e cidadã, não eram questões triviais e sim, temas que ganha sentido em minha peregrinação pela filosofia. Tudo que a minha visão religiosa oportunizou alcança sustentação filosófica.
             Eu já filosofava mesmo antes de saber o que era filosofar. Aos 12 anos ficava a contemplar as estrelas ouvindo Lady In Red e demais canções do Goodtimes, através do meu velho Walkman que também era vermelho, cor contida no título da música que sequer eu conhecia a tradução. Anos mais tarde percebo que sempre busquei refúgio em meus pensamentos, buscando criar meus espaços solitários de reflexão. Hoje percebo que a vida vai nos encaminhado para as próprias vocações e cá estou a filosofar sobre meu encontro com a filosofia.
             Vivo com a filosofia uma complexidade de sentimentos e sensações. Aceito que perguntas não têm respostas, mas anseio por conclusões, definições e conceitos. Não me satisfaço com aprendizados vagos, com entendimentos superficiais. Não quero uma formação para um mero avanço de carreira ou titulação. Quero a filosofia para viver e bem viver e para sair da solidão intelectual e academicamente ser uma profissional que possa contribuir aliando a experiência ao conhecimento.
  Busco uma compreensão horizontal dos temas filosóficos e me arrisco a escolher verticalmente o que me provoca o brio. Ou seja, sei que seria pretensão apreender tudo com profundidade, por isso seleciono os conteúdos que mais me instigam interesse. Desafio-me a cada conteúdo, a cada filósofo, quando por ora me sinto privilegiada e grandiosa com o que estou aprendendo e, por outrora tão pequena e insatisfeita com o que não estou compreendendo. Resolvo e crio dilemas morais, intelectuais e éticos a cada frase, pensamento e ponto final. Dilemas estes que talvez nunca terão um ponto final e sim reticências.
   Acredito muito na intuição como uma aliada da práxis profissional. Permito-me refletir os pensamentos que me veem ao amanhecer quando ouço o cantarolar dos pássaros que fazem coro em minha janela. Por esta janela vejo o meu mundo e as mesmas estrelas que via quando era adolescente, mas agora eu já tenho a maturidade de saber que são apenas astros iluminados e que meus pensamentos não são vãs filosofias.
            Não sei aonde a filosofia irá me levar, mas sei onde ela me trouxe. Trouxe-me a esse mundo que na verdade experimentalmente eu já vivia: o mundo da contemplação, da intelectualidade e dos pensamentos vivos e borbulhantes. O mundo das pessoas que não aceitam exclamações e querem respostas às interrogações. A filosofia está me proporcionando aperfeiçoamento em todos os aspectos. Proporcionando-me refletir cada vez mais sobre os até então vulgares fatos das políticas e das relações humanas, em especial as relações de poder.

            Também não sei se após formação inicial continuarei a explorar um tema filosófico do qual tenho afinidade, se lecionarei, se escreverei sobre filosofia, ética, política, sociedade. Só sei que agora meu desejo é caminhar para alcançar mesmo que minimamente a sabedoria. A filosofia nesse momento segura o meu coração e ilustra minha alma. Faz-me sentir capaz, viva e ativa. Faz com que eu possa exercitar o que tanto amo: o conhecimento e a escrita. Em especial a filosofia como diria um dos meus filósofos favoritos, Severino Boécio, vem como uma consolação. Mas personifico ela não maltrapilha como ele o fez na cadeia e sim, como uma linda mulher de vestes azuis da cor do céu que me intui e inspira a cada composição textual.