sábado, 8 de dezembro de 2012

Esse cara sou eu...



Uma análise do comportamento x música x sociedade

                A música do Rei realmente emplacou as paradas de sucesso de todo país em 2012. Com 50 anos de carreira Roberto Carlos trouxe uma letra repleta de romantismo que está fazendo as mulheres suspirarem e até mesmo acreditarem e esperarem esse cara perfeito. Discutir expectativas e romantismo não é a minha proposta com esse texto, mas sim, o rumo em que a nossa música brasileira vem tomando nos últimos anos.

                Nas décadas de 60, 70 e 80 a Música Popular Brasileira (MPB) encenava aos maiores espetáculos. Do período surgiram nomes consagrados como Betânia, Elis, Caetano, Gil e muitos outros que cantaram o amor, o Brasil e ainda fizeram crítica social com melodias encantadoras e letras de conteúdo. Entre os anos 80 e 90 a geração da Web 1.0, fez explodir as letras ainda críticas e reflexivas de Raul Seixas, Cazuza e Renato Russo. Passaram a ocupar os tops lists também, o rock e pop nacional, revelando bandas como Skank e Jota Quest. A música reflete a sociedade ou a sociedade reflete a música? "Na favela, no Senado, tem sujeira para todo lado...que país é esse???Que país é esse?" perguntava a Legião Urbana do Renato.

                O jovem dessas décadas como é típico de qualquer adolescência era também rebelde e questionador, mas de uma forma diferente. Até o final da década e 90 a maioria dos jovens, no meu ponto de vista, questionava os padrões, lutava por igualdade e liberdade. Não se intimava pelo consumismo e nem era persuadido pelas conveniências. Nessa época, em contraste a essa parcela indagadora, o lado B das fitas cassetes executava sucessos do É o Tchan!. As crianças e adolescente reproduziam as letras e as coreografias das Sheilas que tinham sim conotação com a beleza e sensualidade, mas nem de longe chegariam ao que temos hoje. "Segura o tchan...amarra o tchan", convidava compadre Washington sendo que a maldade do tchan estava na cabeça de quem ouvia e para uma criança de dois anos, o tchan podia ser qualquer ingênuo brinquedo.  

                Então nessa imbricação de música x sociedade x comportamento, explode o Furacão 2000. O funk das massas e dos morros do Rio de Janeiro contagia o Brasil e o ritmo agora sim sensual e com a conotação sexual bem mais explícita invade emissoras de rádio e tv. Bailes funk tornam-se febre nacional e "tô ficando atoladinha...calma calma foguetinha" do Bola de Fogo torna-se hit. Acredito eu, que ao mesmo tempo em que um compositor escreve uma letra, nem sempre ele imagina que será sucesso estrondoso. Quem agrega valor de sucesso a uma música é o ouvinte. No começo desse nosso século o nosso ouvinte acolheu o funk. As letras quentes, claras e muitas vezes até eróticas cairam no gosto popular e os rebolados insinuantes dentro de shorts ou calças justas ficaram comuns. Então as nossas crianças e adolescentes continuavam a reproduzir mas desta vez entendendo bem o que "ficar atoladinha" quer dizer. Volto então a questionar, será que tivemos nessa última década um jovem mais prematuro e disponível ao sexo, mais envolvido à sexualidade e suas manifestações? A música funk provocou ou refletiu esse comportamento?

                Mas como as paradas de sucesso são inconstantes o funk foi sendo menos ouvido e em seu lugar o forró com um pouco mais de "carinho" nas suas letras começou a conquistar. Calypso, Bonde do Forró, Aviões do Forró e Calcinha Preta, apresentaram sim muita sensualidade, mas agora falando de amor, de traição, de sonhos, de desilusões.  Joelma cantou "Não pára não vem cá...cavalo manco agora eu vou te ensinar" e o brasileiro abraçou o forró. Do funk e do forró vários ritmos e bandas surgiram, assim como outros ritmos também paralelamente, mas, para um público um pouco mais restrito. Aqui falamos de massa, de senso comum, do povo que dá a temperatura se um hit vai ou não estourar.

                O sertanejo sempre ocupou um espaço especial no cenário da música brasileiro, assim como o axé, o samba e o pagode, mas que são um pouco mais constantes e estáveis. Em nível de música "caipira" desde Tunico e Tinoco, até duplas mais recentes e ícones como Chitãozinho & Xororó, Leandro & Leonardo e Zezé di Camargo & Luciano embalaram novelas e histórias de amor. Então duplas um pouco diferenciadas surgiram resinificando o sertanejo. Então estouraram Bruno & Marroni, assim como César Menotti & Fabiano.

                Se até então o "é o amor...que mexe com minha cabeça e me deixa assim" encantava, o "dormi na praça pensando nela" caiu no gosto popular. A canção do "seu guarda eu não sou vagabundo" podia ser ouvida com frequência nos autofalantes estreando uma longa era das novas sertanejas.

                A música sertaneja se caracterizava até então por uma marcação típica na viola. Retratava muitas vezes a vida do sertanejo, do campo e é claro dos seus romances. Mas Victor & Léo, estrearam um sertanejo ainda mais urbano, que foi se modificando até o que temos atualmente com um dos ritmos mais tocados do país: o sertanejo universitário. A partir deles, como se fosse uma máquina de pipoca que as estoura desenfreadamente, surgiram as duplas de sertanejo universitário Jorge & Mateus, Fernando & Sorocaba, Marcos & Belutti e assim sucessivamente que nem cabe nesse artigo citar a quantidade de irmãos ou amigos que formam esse novo ritmo característico do Brasil. Ao mesmo tempo os sertanejos individuais passam aparecer e Luan Santana, Gusttavo Lima, Eduardo Costa e Michél Teló atraem multidões em seus shows. As letras? Na maioria falando de amor e traição como no forró e de sexo como no funk. Fazer parapapá, lelelê, tchu tcha, ou qualquer outra figura de linguagem, expressam que o nosso jovem quer hoje: sexo e bebida! Pergunto mais uma vez...a música reflete ou instiga?

                Não bastasse o sertanejo e as duplas que começaram a sair da "máquina de pipoca" (atenção institutos de pesquisas, quantas duplas sertanejas são formadas no Brasil por minuto?), algumas parecem que não estavam mais enquadradas no ritmo e eis que surge o novíssimo Arrocha Universitário. "É fácil é mole é lindo, quero ver jogar a gata no fundo da Fiorino", desafia Fulado de tal em sua música. O ritmo que mistura as alternativas anteriores (funk, forró e sertaneja) agora está no auge, mais uma vez mostrando a nossa geração que a vida só parece ter graça se bebermos e transarmos muito e com o maior número de parceiros (as) possíveis.

                Então para a nossa surpresa, em pleno 2012, época já da Web 3.0 surge o cara que assistiu, ouviu e seguiu compondo em todas essas fases desde a década de 50. Roberto Carlos que compôs "Calhambeque bibi..." que se manteve Rei enquanto muitos saiam e entravam em cena, aos seus 50 anos de carreira e uma letra romântica, emplacou um sucesso nacional. No meu ponto de vista, ele é literalmente "o cara" ao escrever uma música que fala sobre o amor verdadeiro em pleno século 21. Com todos estes meus questionamentos, pergunto se essa nova juventude que dançou do tchan ao arrocha está começando a ver o quão superficiais são as relações baseadas na satisfação sexual, pois os relacionamentos, a vida, requer compromissos mais sólidos e concretos..."o cara que pensa em você toda hora".

                A sociedade evolui em vários aspectos, mas o fato é que tem surgindo muitos sucessos, mas infelizmente poucos ícones e patrimônios da nossa música. Eu gosto de todos esses ritmos, mas em termos de conteúdos temos de convir que as letras deixam a desejar. Não escuto letras que me sensibilizam. Elas exercitam meu corpo, mas não meu cérebro. Não vejo a classe de novos artistas atentos à sociedade e sim a um mundo tomado pela importância do ter, do "pegar", do beber e do esperar a sexta-feira. Nas redes sociais que refletem o cotidiano, todos esperam a sexta para a farra e reclamam da segunda-feira que lhes rende o sustento. Não se orgulham do trabalho digno, das notas na escola, mas sim da quantidade de bocas que beijaram e de litros de cerveja que tomaram. Então é aí que me refiro, qual é a trilha sonora para esses momentos vazios que se vive? Acho que estamos no momento musical realmente adequado, infelizmente. E que venham novos ritmos.